{"id":6397,"date":"2021-04-04T06:21:07","date_gmt":"2021-04-04T09:21:07","guid":{"rendered":"https:\/\/itapicurufm.com.br\/?p=6397"},"modified":"2021-04-04T06:21:08","modified_gmt":"2021-04-04T09:21:08","slug":"o-isolamento-das-putas-maresia-medo-e-fome-na-orla-de-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/itapicurufm.com.br\/index.php\/2021\/04\/04\/o-isolamento-das-putas-maresia-medo-e-fome-na-orla-de-salvador\/","title":{"rendered":"O isolamento das putas: maresia, medo e fome na Orla de Salvador"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Os clientes sumiram e a noite est\u00e1 vazia. O prazer de uma cidade bo\u00eamia se congelou numa madrugada de maresia fria e sem tes\u00e3o. A equipe do CORREIO ouviu pelo menos 14 profissionais do sexo durante duas noites pela orla de uma Salvador adormecida pela pandemia. Nem todas quiseram gravar entrevista ou tirar foto, mas n\u00e3o deixaram de contar suas hist\u00f3rias e como sobrevivem em tempos de coronav\u00edrus. Explicaram como tentam minimizar o risco de pegar a covid-19, apesar do medo da fome ser bem maior do que da doen\u00e7a que j\u00e1 matou mais de 320 mil pessoas no pa\u00eds. De todas as garotas, apenas uma usou a m\u00e1scara o tempo todo. Comem o que levam em suas bolsas e s\u00f3 podem voltar para casa quando o sol nasce e os \u00f4nibus voltam a circular. Durante a reportagem, nenhuma foi abordada pela pol\u00edcia ou fiscais da prefeitura, mas os jornalistas sim. Depois de apresentarmos o crach\u00e1, fomos liberados. Ser profissional do sexo n\u00e3o \u00e9 crime, mas \u00e9 condenada moralmente h\u00e1 s\u00e9culos. \u00c9, inclusive, uma grata coincid\u00eancia que esta reportagem seja publicada no encerramento da Semana Santa. O \u00e1pice da P\u00e1scoa \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, que escolheu aparecer primeiro justamente para Maria Madalena, tida por muitos anos como uma prostituta. Antes de iniciar a mat\u00e9ria, lembre-se: Quem n\u00e3o tem pecado, que atire a primeira pedra.<br>Moys\u00e9s Suzart e Paula <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pastoras da noite<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De vestidinho vermelho com a estampa do Mickey, Raquel se encosta num poste e acende um cigarro na orla de Salvador. Ela apenas observa as ruas se esvaziando por conta do lockdown parcial. H\u00e1 pouco mais de um ano, mal conseguia terminar suas tragadas de tantos clientes \u00e0 sua procura. Como uma pastora da noite, conduzia a madrugada de uma cidade que n\u00e3o sabia dormir cedo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Garota de programa, Raquel ganhava mimos, dinheiro, juras de amor. Era comum faturar R$ 500, antes mesmo do sol nascer. Hoje, com a capital precisando adormecer cedo para evitar o aumento de casos da covid-19, o dinheiro ganho num dia mal d\u00e1 para comprar um ma\u00e7o de cigarro. Como oferecer prazer em tempos de distanciamento social? Nas ruas de Salvador, profissionais do sexo convivem com a falta de clientes e &nbsp;o risco di\u00e1rio de pegar o coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJ\u00e1 estou h\u00e1 quatro horas aqui e n\u00e3o fiz nenhum programa. Est\u00e1 assim quase todos os dias, nem me preocupo com a contamina\u00e7\u00e3o da covid-19, pois n\u00e3o tem cliente. Gasto minha beleza pra nada\u201d, disse Raquel, que trabalha ao lado do marido Val, vendedor ambulante de bebidas &nbsp;durante a madrugada da orla.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2020, Raquel conseguiu o aux\u00edlio emergencial, o que ajudou nas despesas durante a pandemia. Apesar da profiss\u00e3o n\u00e3o ser regulamentada, \u00e9 reconhecida como ocupa\u00e7\u00e3o pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, desde 2002. Contudo, nem todas conseguiram. \u201cQue aux\u00edlio emergencial? Umas conseguiram, outras n\u00e3o. Eu n\u00e3o consegui. Gasto dinheiro com aluguel, fico linda e, quando finalmente aparece um cliente, me oferece R$ 20 pelo programa. N\u00e3o vou. Estou custando menos que uma carne do sol? J\u00e1 estou pensando em voltar para Recife\u201d, disse a pernambucana Agata, amiga de Raquel. \u201cMeu trabalho diminuiu 90%. Antes da pandemia, n\u00e3o ficava 15 minutos parada aqui\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Riscos e fome<\/strong><br>Segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o das Prostitutas da Bahia (Aprosba), at\u00e9 o final de 2019 Salvador possu\u00eda 820 prostitutas cadastradas, sem contar mulheres trans, como Raquel e Agata. Entre elas, quem mais sofre s\u00e3o as que trabalham nas ruas e becos da cidade, o que atinge 85% da classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem clientes, algumas passam fome. A Aprosba atende todos os dias garotas de programa sem dinheiro para comer ou sustentar os filhos. \u201cEst\u00e1 muito triste. Meu telefone n\u00e3o para de receber liga\u00e7\u00f5es de prostitutas precisando comer ou pagar conta. Ajudamos com cestas b\u00e1sicas e auxiliamos, principalmente em 2020, com o cadastramento do auxilio emergencial. Algumas conseguiram, outras n\u00e3o. Muitas nem possuem CPF\u201d, disse a coordenadora da Aprosba, F\u00e1tima Medeiros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a \u00faltima quarta-feira (31), a Aprosba resolveu parar, assim como outras associa\u00e7\u00f5es, como a de Minas Gerais. Uma esp\u00e9cie de greve para que estado e prefeitura reconhe\u00e7am profissionais do sexo como grupo com alta vulnerabilidade nesta pandemia, al\u00e9m de serem inseridas na vacina\u00e7\u00e3o contra a covid-19. &nbsp;Contudo, das mulheres que conversaram com o CORREIO, nenhuma aderiu \u00e0 greve. \u201cN\u00e3o posso, preciso comer\u201d, disse a garota de programa Luana.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 10 anos, Luana se apaixonou, saiu da prostitui\u00e7\u00e3o, casou e teve tr\u00eas filhos. O final deixou de ser feliz em dezembro de 2020, quando o marido levou uma facada numa briga, foi dar queixa, mas ele pr\u00f3prio acabou sendo preso. Havia um mandado de pris\u00e3o em seu nome. Marido detido, pandemia, desemprego e tr\u00eas filhos para alimentar. Luana n\u00e3o teve outra sa\u00edda. \u201cTentei vender salgado, mas voltava com R$ 10. Meus filhos n\u00e3o tinham mais leite pra beber em casa. Luz cortada, geladeira vazia. Voltei a fazer vida no meio da pandemia. Um sexo oral \u00e9 mais dinheiro que um dia todo vendendo salgado\u201d.<br>&nbsp;<br>De volta \u00e0s ruas, Luana se diz assustada com o risco de contrair covid-19. Para minimizar o perigo, ela criou seus pr\u00f3prios protocolos, com uma exig\u00eancia: sem beijo na boca. \u201cMe apavoro todo dia com o risco de morrer de covid e deixar meus filhos. Assim que entro no carro do cliente, &nbsp;higienizo as m\u00e3os dele com meu \u00e1lcool em gel. Como eu preciso tirar minha m\u00e1scara para fazer oral, ele precisa estar o tempo todo com a dele no rosto\u201d, explica. Segundo ela, a t\u00e1tica est\u00e1 dando certo. \u201cAinda n\u00e3o peguei\u201d, frisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro da realidade imposta pela profiss\u00e3o, alguns cuidados s\u00e3o importantes, como prega a Aprosba. Higienizar o local da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira medida. Sobre as posi\u00e7\u00f5es sexuais, vale algumas que evitam o contato face a face. Ter uma muda de roupa para fazer a troca a cada programa tamb\u00e9m minimiza os riscos. Contudo, o mais importante \u00e9 evitar o beijo na boca. Como a doen\u00e7a \u00e9 transmitida pelas vias respirat\u00f3rias, a m\u00e1scara se tornou uma esp\u00e9cie de preservativo contra o coronav\u00edrus. O problema \u00e9 que nem todo mundo quer usar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn3.cworks.cloud\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2021\/04\/02\/Prostituicao_orla_de_Salvador_na_pandemia_marco_de_2021_fotos_Paula_Froes_CORREIO__9_.jpeg\"><\/td><\/tr><tr><td>Foto: Paula Fr\u00f3es\/CORREIO<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cSe o cliente pede para eu beijar, n\u00e3o vou beijar? Claro que vou. Fa\u00e7o tudo, amor. Antes da pandemia, conseguia at\u00e9 R$ 200 por cliente. Hoje com lockdown, depois das 20h quase n\u00e3o passa mais carro aqui na rua e estou aceitando at\u00e9 R$ 100. Se n\u00e3o fizer o que o cliente quer, fico sem trabalhar, morro de fome. Tento me cuidar, evitar beijo na boca, transar de costas, mas se eles pedem, se faz parte do fetiche deles, vou fazer e rezar depois. Preciso comer, pagar aluguel e comprar as coisas que gosto\u201d, disse Bruna, trans de 20 anos, que conversou com o CORREIO despida de m\u00e1scara e exibindo, com orgulho, os seios volumosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Coordenadora do Grupo Gay da Bahia (GGB), a trans Millena Passos assegurou que o momento \u00e9 cr\u00edtico para mulheres trans. \u201cUma prostituta trans que passa dos 35 anos \u00e9 uma vitoriosa. Poucas chegam a esta idade. Com a pandemia, temo que as coisas fiquem piores. &nbsp;Elas tentam se cuidar, mas \u00e9 muito dif\u00edcil. Se n\u00e3o trabalhar, n\u00e3o come. \u00c9 desolador\u201d, conta Millena. Na \u00faltima pesquisa do GGB, realizada em 2019, 329 LGBT+ foram v\u00edtimas de morte violenta no pa\u00eds, s\u00f3 naquele ano. As profissionais do sexo foram as que mais morreram entre as ocupa\u00e7\u00f5es: 11,5%. Ainda n\u00e3o foi feita uma pesquisa sobre trans v\u00edtimas de covid-19. \u201cAquela que n\u00e3o pegou covid-19, \u00e9 porque n\u00e3o est\u00e1 atendendo\u201d, disse Millena.<\/p>\n\n\n\n<p>Garoto de programa, Rafael Zickman fazia in\u00fameras viagens para participar de festas e programas pelo Brasil. Seu nome era requisitado. Com a pandemia, os trabalhos sumiram. Agora, tenta complementar a renda como motorista de aplicativo. Ele pegou covid-19 em agosto do ano passado. \u201cRodo Uber para poder me adaptar financeiramente e fa\u00e7o alguns eventos como Stripper, mesmo com esse lockdown. A clientela est\u00e1 com muito medo! Principalmente o p\u00fablico alvo, que s\u00e3o as pessoas mais velhas, entre 35 e 60 anos. Usar m\u00e1scaras no ato do sexo pode prejudicar nosso trabalho, ningu\u00e9m quer nada mec\u00e2nico\u201d, disse Rafael, de 23 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra barreira \u00e9 o toque de recolher. Mesmo com o decreto, elas burlam a fiscaliza\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o d\u00e1 pra obedecer ao toque de recolher. Quando o chocolate passa (viatura da Rondesp), corremos, entramos nos becos e ficamos escondidas. Tenho um filho e ele n\u00e3o pode passar fome. Preciso me arriscar para ele comer\u201d, disse Carol, de 25 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn3.cworks.cloud\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2021\/04\/02\/Prostituicao_orla_de_Salvador_na_pandemia_marco_de_2021_fotos_Paula_Froes_CORREIO__6_.jpeg\"><\/td><\/tr><tr><td>Foto: Paula Fr\u00f3es\/CORREIO<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Sexo virtual<\/strong><br>Para evitar a pandemia e continuar trabalhando, algumas garotas de programa migraram para o mundo virtual. &nbsp;Entre sites especializados e plataformas, o queridinho do momento \u00e9 o OnlyFans. O mecanismo \u00e9 simples. O usu\u00e1rio paga para ter acesso a conte\u00fados exclusivos da pessoa, incluindo os er\u00f3ticos. O site fica com 20% do lucro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMe reinventei. Uma solu\u00e7\u00e3o foi monetizar o nudes. A gourmetiza\u00e7\u00e3o sexual chegou neste formato de conte\u00fado sexual, igualzinho a uma acompanhante, s\u00f3 que virtual. Com a chegada do Pix e a pandemia, a busca por conte\u00fado er\u00f3tico virtual cresceu muito, at\u00e9 mesmo pelo pr\u00f3prio site de acompanhantes. &nbsp;Onlyfans est\u00e1 na moda. Prefiro fazer chamada de v\u00eddeo pelo Zap. N\u00e3o precisa sair de casa, \u00e9 s\u00f3 &nbsp;receber o pix e ligar a c\u00e2mera. \u00c9 uma forma de evitar a covid, n\u00e9? \u201d, disse Ta\u00edse, de 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A profiss\u00e3o mais antiga do mundo n\u00e3o possui regulamenta\u00e7\u00e3o no Brasil. Prostitutas n\u00e3o t\u00eam direitos trabalhistas, sequer podem sonhar com aposentadoria. No Brasil, apenas dois projetos de lei foram feitos para regulamentar a profiss\u00e3o, incluindo a do ex-deputado Jean Willys, em 2012. Nunca foram votadas. Se serve de alento, nenhuma das Pastoras da Noite \u00a0desta reportagem teve covid-19, segundo as pr\u00f3prias. Elas permanecem sobrevivendo. &#8220;Um cora\u00e7\u00e3o noturno com gritos de s\u00faplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de sil\u00eancio\u201d, como escreveu Jorge Amado\u00a0no cl\u00e1ssico Pastores da Noite, lan\u00e7ado em 1964 (e que virou filme em 1977).(https:\/\/www.correio24horas.com.br\/)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os clientes sumiram e a noite est\u00e1 vazia. 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